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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Ai, isso se eu soubesse aos vinte o que sei hoje, diz a mulher encostada ao balcão. Tem o casaco por cima dos ombros e o porta-moedas entalado por debaixo do braço. Ai, se eu soubesse, a coisa ia cantar diferente, ia. Mas aos vinte somos umas parvas. A rapariga do café, que deve andar pelos vinte, faz um daqueles sorrisos de quem não sabe o que responder. Mas é verdade, diz-lhe a mulher antes de sair. Sabe o que eu lhe digo? Abra os olhos enquanto ainda é nova. Abra os olhos, que isto, a vida, passa num instante. E eu lembro-me de um fado da Cidália Moreira que a minha mãe gostava muito. O meu pai punha o disco e ela ficava debruçada sobre as costas do sofá, com os dedos das mãos entrelaçados e os olhos ganhavam-lhe uma melancolia rara. E eu ficava a olhá-la. Parecia-me mais nova, como se as memórias que lhe semicerravam os olhos também lhe engolissem o corpo. No fim, para disfarçar a comoção, desconversava e dizia, esta fadista canta que é uma maravilha. Diz que a mãe dela era cigana
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