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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Uma mulher independente

Cristina Nobre Soares, 12.08.20

A prima Odete era irmã mais nova da prima Maria Isabel, fazendo entre elas três anos e seis meses de diferença.

- São a noite e o dia, estas minhas duas filhas – dizia a tia Maria Adelina.

Eram realmente diferentes as duas irmãs. A prima Maria Isabel era uma mulher independente, que abraçara a causa do proletariado e da redistribuição da propriedade privada desde Maio de setenta e quatro, mas só da boca para fora e em debates de almoços de família, não tendo nunca, que se soubesse, sido filiada em algum partido ou grupo revolucionário. A prima Maria Isabel era uma boémia que não via novelas, dizia ela que alienavam o povo, e se recusava a usar soutien (mas também era uma tábua), fumava dois maços de Sintra por dia, fez uma permanente que a tornou numa versão de metro e sessenta da Lara Li, teve vários empregos como secretária e antes de ir viver com o Tó para um apartamento de uma assoalhada, mais marquise, em Benfica, viveu quase dois anos com um retornado de Nova Lisboa, a quem a tia Maria Adelina, mesmo reconhecendo que ele era bom rapaz e trabalhador,  se fartou de torcer o nariz:

- Só me faltava agora era ter netos mulatos.

Já o Tó era o genro dos olhos da tia Maria Adelina:

- Tirando lá o ser comunista, é uma jóia de rapaz.

A prima Maria Isabel e o Tó viveram juntos até mil novecentos e oitenta e nove. Separaram-se umas semanas depois da queda do muro de Berlim.

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