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Um post fofinho de Natal

por Cristina Nobre Soares, em 15.12.16

Cada vez mais me aborrece esta correria natalícia. Não tenho paciência, dá-me nervos. Bichas em todo o lado, gente aos magotes com uma urgência de comprar sem explicação. Em dar, dizem elas. Mas eu, como ex-consumista, me confesso: o dar tem costas largas. O comprar, aquele ter imediato, aquela posse cheia brilho, só porque toda a gente tem, é que é o cerne da questão. O comprar, por mais generoso que seja, é que nos vai preenchendo os pequenos vazios que teimamos em ignorar. Simplesmente por não termos tempo para olhar para eles com atenção. E não temos tempo, muitas vezes, porque já o gastámos a comprar. O engraçado é que depois vai tudo bater àquele lugar-comum, batidíssimo (por ser dito, e não por ser praticado), que a vida não se compra. Pois não, mas gasta-se.
Há uns anos eu não teria esta conversa. Há uns anos eu era daquelas que consumia brilho de Natal "made in China" em quantidades industriais. E ainda pedia para embrulhar com papel bonito. Se calhar para tapar o baço que trazia comigo. Que os vazios são muito baços, tão baços que a gente passa uma vida inteira sem dar por eles. Mas um dia percebes que já não estás a ir para nova e abres a pestana, resolves fazer aquela coisa das prioridades da vida, e vejam lá, os vazios preenchem-se e deixa de haver espaço para brilhos postiços. E percebes, também, que a única coisa que enche mesmo esses vazios é o tempo, que é estupidamente escasso e que passa num tirinho, raios o partam. A dada altura entra-nos pelos olhos adentro que o único presente que vale a pena ter é aquele que é feito de horas, minutos e que depois se torna em memórias. E toda a gente sabe que o Natal sem memórias é uma espécie de bacalhau sem couves, ou uma coisa que se aquece no microondas e que uma semana depois já ninguém se lembra. O Natal é como o resto da vidinha, senhores: vive-se. Não se embala em fábrica, muito menos se compra. Vá. Fica aqui o meu post fofinho de Natal. Cheiinho de lugares-comuns ensopados em calda de açúcar. Tinha de ser. Nem a coisa lá ia de outra maneira.

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