Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]


Um dia, depois de chegar do liceu

por Cristina Nobre Soares, em 15.12.17

Um dia, depois de chegar do liceu, perguntei-te se era verdade que havia brancos que maltratavam os pretos em Moçambique. Olhaste-me com uma raiva tão grande que me sobressaltei. Lembro-me de ter tido vontade de dar um passo atrás, mas, em vez disso, olhei-te também, em tom de desafio, com aquela firmeza forçada de quem tem medo de ouvir a verdade. Cerraste os punhos, a mãe aproximou-se de nós para evitar a conversa, mas antes que ela interrompesse despejei o que a Margarida da minha turma me tinha contado sobre o que a madrinha dela fazia aos criados, não pestanejaste, tem calma, homem, disse a mãe, eu não desviei os olhos e tu não disseste nada. Nada. E vi que nos teus olhos não era raiva, mais sim mágoa. Voltaste-me as costas. Eu só queria compreender, perceber, porque ninguém pertence ao que não conhece. Nesse dia larguei a terra que diziam ser minha ao te afastares do que nos ficava por dizer. Só lá regressaste muitos anos depois, tu já eras velho e eu mãe, ali na minha casa, sentado num dos cadeirões de que tanto gostavas, numa última tarde de Outono. As histórias que me contaste nessa tarde não eram as aventuras e peripécias de África do costume, eram histórias que eu nunca tinha ouvido. Algumas delas, nem a mãe, confessou-me ela depois. Fiquei a olhar-te, como naquele dia em que chegara do liceu, mas agora sem desafio. Pela primeira vez na minha vida vi-te vulnerável, homem, muito maior que um pai. Não disse nada. Tive medo que a uma palavra minha, uma única que fosse, tu saísses de novo e desaparecesses ao fundo do corredor. Fiquei imóvel, muda, como fazia em criança, quando tu punhas os teus discos de ópera e eu sustinha a respiração para que a magia não se quebrasse. Se não desses por mim não me mandavas embora. Quando saíste já era tarde, mas ainda a tempo e deste-me uma palmadinha no rosto. Saíste. Nunca mais voltaste. Já me tinhas respondido. E ao fazê-lo devolveste-me a terra onde nasci.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Comentar:

CorretorEmoji

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html