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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Todos os dias são dias para não sermos sozinhos.

Cristina Nobre Soares, 14.02.20

Hoje, é um mau dia para se fazer anos, diz a rapariga do balcão. Olha, era pior se fizesses anos no dia de Natal, que aí só te davam uma prenda, diz uma mulher com uma gola alta que lhe salienta a papada e o pescoço curto, quem faz anos no dia de Natal está lixado, recebe prendas pela metade.

A rapariga do balcão encolhe os ombros e repete, mas é muito mau dia para se fazer anos e para se estar sozinha. Deixa-te disso, diz a mulher, és nova. Mau é ser-se velho e sozinho. Tantos que a gente sabe desprezados. É verdade, diz a rapariga ao balcão, é verdade, sim senhora.

Pago o café e, ao dar-me o troco, a rapariga diz-me baixinho, mas é uma tristeza uma pessoa fazer anos neste dia. Ainda nos faz mais sozinhos, não é?

Sorrio-lhe sem responder e à vinda para casa reparo que o terreno dos castanheiros está coberto de azedas. O chiar de um estendal na rua vazia. Os meus primos ensinaram-me a partir o caule das azedas e a chupar-lhe a seiva adocicada. Detestava o sabor, mas imitava-os para não fazerem pouco. Tal como me fiz de valente quando um miúdo da aldeia do outro lado da estrada nacional matou uma cobra das grandes e andava com ela espetada num pau para fazer medo. Voltei a cara e fiz que não vi, esperando que ele não desse por eu ser da cidade, que os da cidade, ali, são fáceis de meter medo e humilhar. Não deram por isso, mas ficou-me, até hoje, pelo canto do olho, a imagem do raio da cobra já meia seca, com o pau atravessado por debaixo da cabeça.

O varredor sobressalta-me com um bom dia do outro lado da rua. Respondo-lhe de volta. E a minha sombra estica-se quase até meio do caminho de terra batida. Todos os dias são dias para não sermos sozinhos.

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