Todos os dias são dias para não sermos sozinhos.
Hoje, é um mau dia para se fazer anos, diz a rapariga do balcão. Olha, era pior se fizesses anos no dia de Natal, que aí só te davam uma prenda, diz uma mulher com uma gola alta que lhe salienta a papada e o pescoço curto, quem faz anos no dia de Natal está lixado, recebe prendas pela metade.
A rapariga do balcão encolhe os ombros e repete, mas é muito mau dia para se fazer anos e para se estar sozinha. Deixa-te disso, diz a mulher, és nova. Mau é ser-se velho e sozinho. Tantos que a gente sabe desprezados. É verdade, diz a rapariga ao balcão, é verdade, sim senhora.
Pago o café e, ao dar-me o troco, a rapariga diz-me baixinho, mas é uma tristeza uma pessoa fazer anos neste dia. Ainda nos faz mais sozinhos, não é?
Sorrio-lhe sem responder e à vinda para casa reparo que o terreno dos castanheiros está coberto de azedas. O chiar de um estendal na rua vazia. Os meus primos ensinaram-me a partir o caule das azedas e a chupar-lhe a seiva adocicada. Detestava o sabor, mas imitava-os para não fazerem pouco. Tal como me fiz de valente quando um miúdo da aldeia do outro lado da estrada nacional matou uma cobra das grandes e andava com ela espetada num pau para fazer medo. Voltei a cara e fiz que não vi, esperando que ele não desse por eu ser da cidade, que os da cidade, ali, são fáceis de meter medo e humilhar. Não deram por isso, mas ficou-me, até hoje, pelo canto do olho, a imagem do raio da cobra já meia seca, com o pau atravessado por debaixo da cabeça.
O varredor sobressalta-me com um bom dia do outro lado da rua. Respondo-lhe de volta. E a minha sombra estica-se quase até meio do caminho de terra batida. Todos os dias são dias para não sermos sozinhos.
