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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Tio Macedo

Cristina Nobre Soares, 17.08.20

O tio Macedo era quatro anos mais novo e uns cinco centímetros mais baixo que a tia Maria Adelina. Por causa da diferença de altura a tia Maria Adelina nunca usava saltos altos nem mises muito armadas. Não que ele lhe pedisse, que o tio Macedo não era pessoa para se ocupar dessas miudezas, mas a ela metera-se-lhe na ideia que os anos e os centímetros a menos davam a ideia que ela se vira aflita para arranjar um marido, que nem era mentira nenhuma, mas há coisas que não se precisam de saber.

O tio Macedo reformara-se antes dos sessenta, à conta de um joelho desfeito num acidente de trabalho, a qual era uma história um bocadinho mal contada dado que ele fora um manga de alpaca toda a vida. Era um homem de gostos simples, duas latinhas de atum com uma batatinha cozida eram o suficiente para o deixar feliz . Segundo dizia a filha mais velha era um grandessissímo reaccionário (com um azar sem explicação ao Vasco Gonçalves). Tirando isso não ligava grande coisa a política, preferindo outro tipo de programas de variedades, tanto na rádio como na televisão. Era um fiel seguidor do “Pão com Manteiga”, de tal modo que quando o Carlos Cruz começou com o “Um, dois, três”, as segundas à noite tornaram-se sagradas.

- Este gajo é um sádico, caramba! - comentava o tio Macedo, quando o Carlos Cruz trocava as voltas e fazia suspense com os concorrentes. Coitado do tio Macedo, sofria como se fosse com ele caso os concorrentes rejeitassem o objecto que dava o carro ou os electrodomésticos.

A fixação com o "Um, dois, três" era tão grande que mesmo tendo um carocha branco de 1978 e não bebendo leite, dizia ele que no seu tempo o leite era para as criancinhas e para quem já não tinha dentes, convenceu a tia Maria Adelina a comprar Cola Cao a cada duas semanas para ver ser lhes calhava o automóvel:

- Com dois rótulos de cada vez temos mais chances!

Coisa que obrigou a tia Maria Adelina a criar toda uma panóplia de receitas com Cola Cao, como o "molotof mulato" e a "mousse de chocolate um, dois , três".

O tio Macedo carregava algum desgosto pela falta de sorte das filhas, que a ele lhe parecia ser mais uma grande falta de juízo e, em acto de contrição, talvez a falta da rédea curta que ele não tinha sido capaz de lhes dar.
Sobre os genros dizia apenas:

- Cada tiro, cada melro.

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