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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Tio Alfredo
Lá fora, a luz oblíqua descia sobre os cães deitados na gravilha. Vens? Perguntavam-me eles. Sim, e nós corríamos pela estrada de terra batida. Na curva, à entrada da vinha, estava sempre um homem sem uma perna, apoiado por uma muleta. Com as unhas escuras abria pevides e depois cuspia as cascas para o lado. Perdeu-a na guerra, dizia baixinho um dos rapazes. Os olhos apagados e magros do homem baixavam-se à nossa passagem. Quantos pretos matou lá, tio Alfredo? Os olhos dele avermelhavam-se e a espuma cobria-lhe os cantos da boca. Estupores, gritava enquanto fugíamos pelo caminho de gravilha, meus grandes estupores. Lá em baixo os cães ladravam, nós a correr pela encosta, os rapazes a rir e eu com medo do homem, meus grandes estupores. Até que um me dizia, mas tu também nasceste lá, na terra dos pretos. És preta. E eu a dizer que não, que era branca, e ele escarninho a dizer, és preta por baixo. O homem ainda a gritar, estupores, e eu a morder os lábios para não chorar, até que outro deles, o que me dava a sempre a mão para saltar a silvas, me dizia ao ouvido, não faz mal, mesmo que sejas preta por baixo, quando crescer, eu caso contigo.
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