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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Tinham a mania

Cristina Nobre Soares, 14.08.20

A prima Maria Isabel nunca foi muito à bola com o cunhado Zé Manel, sempre lhe topou as manhas de engatatão. Mas a bem dizer também nunca se deu muito bem com a irmã. Nem com a mãe, muito menos com o pai, com quem se pegava dia sim, dia não, por causa da política. Zangou-se com uma série de amigos, uns por serem fascistas reaccionários, outros por serem da extrema-esquerda, outros por serem burgueses sem rumo político, uns por serem pedantes, outros por não terem maneiras. Também não tinha muita paciência para os devotos do rock progressivo, muito menos para os que só ouviam música de intervenção e desprezava profundamente pessoas, como a irmã, que ouviam Roberto Carlos e o “Foram cravos, foram prosas” da Manuela Moura Guedes. Não suportava homens de bigode, nem mulheres platinadas, nem a dona da papelaria, nem a vizinha do direito. Topava à légua as fraquezas dos outros, especialmente as iguais ou do género das suas. Lia todos os segundos sentidos, ninguém, mas ninguém lhe comia as papas na cabeça.

- És uma complexada de merda – disse-lhe uma vez o Tó, depois de ter passado quase uma hora a ouvi-la dizer mal de uma colega de trabalho, que segundo ela, “tinha a mania”.

Maria Isabel levantou-se do sofá de rompante, disse-lhe que não lhe admitia, mais duas ou três verdades, que ela tinha de se ficar sempre com a última resposta, e foi para a marquise fumar. A vizinha do esquerdo, que usava um rabo-de-cavalo preso ao lado, ouvia Abba em altos berros. Maria Isabel imaginou-se a gritar a letra do "The winner takes it all" a todos os que não a compreendiam, assim como, muitos anos mais tarde, a Meryl Streep faria com o Pierce Borsnan naquele musical insuportavelmente piroso.  Naquele tempo, Maria Isabel, da Meryl ainda só tinha visto o Kramer contra Kramer, mas  já aí embirrava com ela.  Era com ela e com a Isabel Baía. Davam-lhe nervos. Tinham a mania e um nariz horrível.

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