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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Da janela do autocarro, reparo no vulto de duas araucárias. É uma árvore magnífica, embora a simetria dos ramos a torne quase irreal, uma árvore de brincar. Onde vivo é comum encontrá-la nos quintais das casas, muitas vezes com o topo da copa decepado. Explicaram-me que isto se deve a uma superstição: se a araucária passar o telhado, o dono da casa morre. Então, para enganar a morte, cortam-na. A avó da Patrícia tinha muitas superstições destas: benzia-se quando entornava sal, que sal entornado traz má sorte, dizia que se andássemos para trás, de costas, chamávamos o canhoto, corria a bater na madeira, três vezes, se acaso alguém falasse em morte, não fosse a danada pensar que a estávamos a chamar. O mundo da avó da Patrícia era um mundo cheio de coisas más, que se podia controlar com uma obediência que tinha poderes mágicos. Seguíssemos os preceitos e nada nos aconteceria. As pessoas cultas dirão que isto era ignorância. Realmente a avó da Patrícia não saberia que as araucárias são gimnospérmicas, coníferas muito, muito antigas, mas decerto que temeria pelo dia em que a copa ultrapassasse o telhado e conheceria, de ouvir dizer, que seria o suficiente para a tomar por certa, a história de alguém, que por desleixo ou falta de temor, morrera de uma morte tenebrosa, cheia de estertores e olhos esbugalhados de medo, e terminaria dizendo, servindo-nos o leite nos copos de vidro com flores cor de laranja, a gente até pode não acreditar nestas coisas, mas temos de lhes ter respeito. A mulher, ao meu lado, arranca-me da cozinha da avó da Patrícia, com um ataque de tosse. Lá fora, já é noite e a lua, como todas as luas cheias, mete respeito.
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