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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Hoje está um dia de chuva e de vento cheio de folhas dos carvalhos híbridos que moram no terreno da frente. Em dias assim, na primária, a professora mandava-nos para a rua na mesma, a chuva não morde, dizia ela. Ficávamos abrigados debaixo do telheiro, que era demasiado estreito para as brincadeiras. O pátio ficava vazio, só a mãe do Nuno Luís aparecia do outro lado do portão, como aparecia todos os dias, para lhe trazer o lanche, com pão acabado de comprar na padaria. Era um mimado, mas nós perdoávamos-lhe porque ele tinha ficado sem pai, que morrera num acidente para os lados de Aveiras. Morte instantânea, comentavam as mães, mas deixou um belo seguro de vida à mulher e ao filho, apesar da desgraça, ficaram bem. Às vezes, em voz mais baixa, também diziam que a mãe do Nuno Luís tinha tido era sorte, porque o marido lhe batia e não a deixava sair de casa. Pessoas daquele nível, ele licenciado, ela vê-se que teve berço e, vai-se a ver, a miséria era pior que a da gente desgraçada. Foi o melhor que lhe podia ter acontecido, agora até remoçou, pode refazer a vida dela. Havia uma crueldade enorme nesta sorte, que mais do que uma sorte era um alívio. Vá, corre, não te molhes, gritava a mãe do Nuno Luís, quando ele voltava do portão com o lanche. Não te molhes, nem caias, meu anjo. Ele corria e, ao chegar ao telheiro, destapava a cabeça para lhe mostrar que não se tinha molhado. Talvez a sorte seja isso: uma sensação de alívio perante a vida.
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