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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Os únicos fritos de Natal que eu gostava quando era miúda, eram os sonhos com calda que a minha mãe fazia. Todo o processo tinha um ritual completo. Pedia ao meu pai ou ao meu irmão para lhe baterem os sonhos, com uma colher de pau enorme, à qual ela chamava a “colher dos sonhos”. Este ano ficaram bonitos, dizia, mesmo sabendo que todos os anos ficavam. Depois fazia uma calda de açúcar que sabia muito a limão e que era servida na molheira do serviço chinês que viera de Moçambique. O das chávenas de chá em cujo fundo a contraluz se via a cara de uma chinesa. Abríamos um sonho e deitávamos a calda lá dentro, os dedos e os cantos da boca peganhentos, não deites tanta, o doce a arranhar a garganta, olha que ficas com dores de barriga, eu a desfazer o cristalizado da calda, que ficava sempre cristalizada no dia 25, com o rabo da colher, não deites tanta e o cheiro a canela e a pinheiro a escorrer na humidade das janelas. Nunca aprendi a fazer sonhos. Há mistérios que é preciso manter para que as memórias fiquem intactas. Cristalizadas como a calda de açúcar.
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