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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Sobre o drama dos refugiados.

Cristina Nobre Soares, 03.09.15

Às vezes apareciam no telejornal imagens de crianças africanas subnutridas. Miúdos de barrigas dilatadas, com moscas e sujidade na cara, ao colo de mães tristes, de mamas murchas, que lhes caiam, vazias, no corpo esquelético. A minha mãe, voltava a cara, ai mudem-me isso, que não consigo ver tanta desgraça. Um de nós levantava-se e mudava para o segundo canal e fingíamos que mundo era um sitio com as mesmas assoalhadas de conforto e conveniência que a nossa casa. E éramos todos boas pessoas. Criaturas incapazes de lidar com um mundo esfacelado que no entrava pela sala dentro e se sentava sem pedir licença nos sofás com panos de crochet nos braços. Porque no momento em que a vida nos entra assim pelas consciência adentro , sabemos podemos ser nós. E baixamos os olhos, com o instinto de sobrevivência a dizer-nos baixinho, ainda bem que não somos. Nas últimas semanas temos acompanhado, confortavelmente impotentes, o drama dos refugiados. Pais que passam os filhos por cima de arame farpado, crianças sozinhas a caminharem na linha de comboio, pessoas que se atropelam desesperadas por um lugar numa carruagem, o corpo de uma criança de três anos numa praia. Um corpo vestido como vestiríamos o nosso filho para ir para o infantário, e novamente sabemos que podíamos ser nós. Nós. Num outro mundo, onde apenas se luta por vida e não pela vidinha melhor dos dias. Num mundo onde o desconhecido, apesar de tudo, tresanda menos a morte que aquilo que conhecem e por isso se torna na única opção. Já não podemos mudar o canal. Já não nos podemos mentir, nem olhar para o lado, porque a partir do momento em que sabemos, passamos a levar a esperança dos outros nas mãos. E resta-nos fazer o que é certo.

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