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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Senta-te aí

Cristina Nobre Soares, 17.01.20

-Senta-te aí.

Levanto a cabeça do telemóvel. À minha frente uma mulher cansada, de cabelo pigarço, com o ondulado crespo muito agarrado à cabeça.

- Senta-te aí.

Ordena ela de novo a um homem com a camisa mal presa nas calças e as mãos encolhidas como se a enfiarem pelo peito adentro. Deve ser tontinho, a minha mãe a dizer naquela piedade, meio aliviada pela sanidade dos seus, meio a esconjurar o medo. Vá, anda, deve ser tontinho, eu miúda e a minha mãe a apertar-me a mão na paragem do autocarro, não olhes, deixa o estar, deve ser tontinho, não sabe o que diz, o homem a berrar coisas sem sentido, cheias de palavrões e cuspo seco e branco aos cantos da boca, não olhes, anda, não ligues, não sabe o que diz, a ver se ele não atravessa a rua, raio do autocarro que não chega, que coisa, não ligues, deve ser tontinho.

O homem ao meu lado diz qualquer coisa que não se percebe.

- Deixa-te estar aí.

Pergunto à mulher do cabelo crespo se se quer sentar. Diz-me que não, obrigada.

Chamam o meu número e levanto-me. Embora haja gente em pé, ninguém se senta no lugar que deixei vago. Até que a mulher do cabelo crespo pousa a mala na cadeira, mais os envelopes dos exames e o casaco que trazia pendurado no braço. A compor o vazio. O homem não diz nada, não se mexe. Mesmo assim ela diz-lhe:

- Deixa-te estar aí.

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