Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Senta-se à minha frente com as mãos delicadamente sobrepostas no colo. Deve ter mais de cinquenta anos. Ou talvez já perto dos sessenta. Há alguma coisa para além da meia idade no rosto dela. Tem um bindi vermelho na testa e veste um sari azul e branco, muito discreto. E lembro-me de novo da minha professora de português do ciclo preparatório, a limpar o batom dos cantos da boca e eu a ler a composição. Não me lembro bem sobre o que era. Mas sei que nela habitavam macacos aos ombros de homens morenos, um elefante e uma rapariga de sari índigo. Termino e ela pergunta-me, tu sabes o que é um sari? Digo-lho que sim. Então, explica-me lá. O desafio na voz e os outros demasiado calados. E eu, muito vermelha, a dizer-lhe que é o nome que se dá à roupa das indianas. E como é que sabes isso? Aprendi num livro que li. E explico-lhe, também, mesmo sem ela perguntar, que o índigo é um tom de azul que se tira de uma planta que há na Índia. Ela sorri, quase sem mexer os lábios, gostei muito, depois deixa em cima da minha secretária para eu ver se tem erros. A mulher indiana já lá não está. Saiu em Entrecampos. Ou talvez só tenha entrado num livro que li.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.