Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Sangue velho

Cristina Nobre Soares, 17.03.18

Já não sei quantas vezes é que me pediram para contar a história da minha mudança de vida. Perdi a conta, e confesso que já suspiro antes de o fazer. Mas conto-a, quase com contornos de epopeia de final feliz. Conto-a assim porque na maior parte das vezes quem me pede para contá-la não quer realmente saber o que se passou, e só o faz para ver se ganha coragem. E eu faço o meu papel. Omito todos os dias cinzentos, desesperados, angustiados que essa passagem teve. Omito as lágrimas, a falta de força nas pernas, o pensar permanentemente que desistir poderia não ser mais fácil mas decerto doeria menos. E omito a pior coisa de todas: a dos empregadores, clientes, parceiros, diabo a quatro, mesmo aqueles que aplaudem a coragem de quem o fez, acharem que já “és velha para o mercado”. Sim, senhora, toda a gente te admira muito, tiveste muita coragem e tal, mas estamos à procura de malta mais nova, sangue novo (o que me torna numa espécie de sangue velho daquele que já não traz saúdinha nenhuma), que “têm mais capacidade de adaptação” e "sangue na guelra" (o que me dá muita vontade de rir). Não adianta argumentares com o facto de poderes ter mais algum calo, experiência (daquela que se ganha na vida e não num estágio). Porque para “eles” já és velha, fora de prazo. Aos 40 e picos. Mais ou menos a meio da tua vida, o que é um completo absurdo. Por isso, caros empreendedores, que tão inspirados se dizem com histórias como a minha, lembrem-se que as mesmas não se fazem com palminhas e palmadinhas nas costas, nem servem apenas para fazer Power points inspiradores. Constroem-se com dar oportunidades concretas, com largar preconceitos estúpidos (e facilidades de contratar malta nova porque a ela se paga menos). E que a idade não é uma perda. Muito pelo contrário, é um ganho, que o tempo ganha-se sempre. Que, ao contrário do que muita gente pensa, o tempo não se perde, transforma-se. Que foi o que eu fiz com o meu. Mas para isso precisei de o ganhar primeiro.

Comentar:

Mais

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.