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Sangue velho

por Cristina Nobre Soares, em 17.03.18

Já não sei quantas vezes é que me pediram para contar a história da minha mudança de vida. Perdi a conta, e confesso que já suspiro antes de o fazer. Mas conto-a, quase com contornos de epopeia de final feliz. Conto-a assim porque na maior parte das vezes quem me pede para contá-la não quer realmente saber o que se passou, e só o faz para ver se ganha coragem. E eu faço o meu papel. Omito todos os dias cinzentos, desesperados, angustiados que essa passagem teve. Omito as lágrimas, a falta de força nas pernas, o pensar permanentemente que desistir poderia não ser mais fácil mas decerto doeria menos. E omito a pior coisa de todas: a dos empregadores, clientes, parceiros, diabo a quatro, mesmo aqueles que aplaudem a coragem de quem o fez, acharem que já “és velha para o mercado”. Sim, senhora, toda a gente te admira muito, tiveste muita coragem e tal, mas estamos à procura de malta mais nova, sangue novo (o que me torna numa espécie de sangue velho daquele que já não traz saúdinha nenhuma), que “têm mais capacidade de adaptação” e "sangue na guelra" (o que me dá muita vontade de rir). Não adianta argumentares com o facto de poderes ter mais algum calo, experiência (daquela que se ganha na vida e não num estágio). Porque para “eles” já és velha, fora de prazo. Aos 40 e picos. Mais ou menos a meio da tua vida, o que é um completo absurdo. Por isso, caros empreendedores, que tão inspirados se dizem com histórias como a minha, lembrem-se que as mesmas não se fazem com palminhas e palmadinhas nas costas, nem servem apenas para fazer Power points inspiradores. Constroem-se com dar oportunidades concretas, com largar preconceitos estúpidos (e facilidades de contratar malta nova porque a ela se paga menos). E que a idade não é uma perda. Muito pelo contrário, é um ganho, que o tempo ganha-se sempre. Que, ao contrário do que muita gente pensa, o tempo não se perde, transforma-se. Que foi o que eu fiz com o meu. Mas para isso precisei de o ganhar primeiro.

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