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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Uma vez voltávamos de Sintra, no Cortina de volante ao contrário. O meu pai às vezes levava-nos lá ao fim-de-semana. À vinda apanhámos trânsito e a dada altura o carro de trás começou buzinar. Ultrapassou-nos, o vidro do pendura abriu-se e de lá de dentro alguém gritou: logo vi que eras um filho da puta de um retornado. Devias lá ter ficado com os pretos. Retornado. A palavra era dita com a raiva a separar as sílabas para garantir que era ouvida. Re-tor-na-do. A minha mãe, vendo os olhos do meu pai a ficarem vermelhos, disse-lhe, deixa lá, homem, não ligues. Não ligues. Que era o que ela também me dizia quando eu me queixava que havia, na escola, miúdos que diziam que eu devia voltar para a minha terra. Não ligues. Quando, no ciclo preparatório, metade da turma me deixou de falar porque contei uma anedota sobre o Samora Machel, és mesmo uma racista, uma retornada. Não ligues. Quando alguém, depois de me contar que o tio tinha morrido na guerra do Ultramar me disse, os retornados é que deviam ter morrido lá todos. Não ligues. Retornado não era bem um insulto, era uma palavra de ferida aberta. Que doía a quem a ouvia e a quem a dizia. Cicatrizou como muitas das coisas cicatrizam em Portugal, com silêncio e a não ligar. Mas engraçado como a própria palavra era um retorno em si. Um retornar ao que se queria esquecer. E se calhar era por isso que tinha tanto peso, que impedia que se tornasse uma palavra igual às outras, integrada na mesma língua. O outro carro afastou-se, a minha mãe disse mais uma vez, não ligues. Já era noite quando regressámos a casa. Se bem que nessa tarde tenho ideia que voltámos a retornar. Mas nunca mais não falámos sobre isso. Não ligámos.
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