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Restos

por Cristina Nobre Soares, em 14.06.19

O meu 9º ano talvez tenha sido o ano escolar que mais me marcou. Nesse ano tive dos melhores professores da minha vida (o de geografia, um dos melhores contadores de histórias que conheci, a de português, que fez com que achássemos os Lusíadas uma coisa formidável, a de francês, a bacana a quem contávamos todos os nossos dramas). Mas também os piores: a minha professora de história, às vezes, vinha com os copos depois de almoço, a de inglês devia ter aprendido inglês com o Zézé Camarinha e a de saúde, que por acaso era nossa directora de turma, e que só dizia disparates. Algum deles gravíssimos, como o “ninguém engravida na primeira vez”, que custou uma falta disciplinar à Sandra, por dizer "a stôra é uma irresponsável". A mesmo professora que nos disse a pérola, no primeiro dia de aulas: “Esta turma foi feita com restos”.

Aquilo, na altura, chocou-me tremendamente. O que é que ela quereria dizer com restos? Talvez falasse da Flora, que tinha 18 anos e estava a ver se não passava para o recorrente. Ou da Maria Pia, a menina betinha do Restelo, que os pais tinham matriculado naquela escola para a afastar do namorado agarrado à heroína e que foi inútil, pois ela acabou agarrada à heroína na mesma. Ou da Isabel, recém-chegada da África do Sul, completamente inadaptada a Portugal e revoltada por a mãe ter de andar limpar a dias. Ou do Nuno que pedia ao pai para o ir apanhar ao fim da rua para ninguém descobrir que o pai era preto. Ou da Susana, que gostava de Joy Division e andava sempre sozinha por causa da fama de puta, por já ter ido para a cama com uma data de rapazes.

Provavelmente era isto que ela queria dizer com “restos”. O meu 9º ano foi uma bolha de "restos". É que há bolhas onde precisamos de viver, para podermos rebentar outras.

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2 comentários

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Luísa de Sousa a 14.06.2019

Acredito que por vezes somos postos à prova muito cedo para crescermos!!!
Ainda hoje agradeço o facto de ter tido uma primária num colégio, com todo o tipo de classes sociais, senti a descriminação, a falta de sensibilidade de professores para com os mais desfavorecidos, os castigos aos mais pobres, a proteção aos ricos, etc.etc.
Estar num ambiente destes, apesar da pouca idade, ajudou-me a ter um olhar mais crítico!!!
Com certeza o que a Cristina viveu, ajudou a desafiar-se em tudo na vida!
Gostei muito do texto, gosto muito da forma como escreve!
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imsilva a 14.06.2019

Ou seja, o 9° ano foi um ano de aprendizagem fora dos livros.

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