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Ressaca

por Cristina Nobre Soares, em 18.09.18

O primeiro texto que escrevemos num blogue é uma espécie de mensagem na garrafa lançada ao mar. Não sabemos onde chega. Se alguém a recebe, a lê. Até que um dia, depois de muitas marés e muitos textos, chega-nos uma resposta. Alguém que nos leu. Alguém que não conhecemos, que não é primo, amigo, daqueles que gostam do que escrevemos porque gostam de nós. Alguém de um outro lado, que pode estar a quilómetros de distância ou ali na parede ao lado. Os textos depois dessa mensagem mudam. Não nas palavras ou na forma como são escritos, mas na intenção. A ilusão de que escrevemos para nós perde-se e passa a haver uma intenção. Um falar para alguém. 
As redes sociais agilizaram este processo. Os oceanos e as mensagens na garrafa perderam-se. Tornou-se mais fácil e rápido comunicarmos, sermos vistos e aplaudidos. O “like” é um aplauso, não uma mensagem. E os aplausos inebriam. Quando estamos ébrios perdemos a noção de muita coisa: do tempo, do ruído, das distâncias, do equilíbrio. Não tenho nada contra as redes sociais. Muito pelo contrário. Sou capaz de enumerar muitas mais vantagens do que malefícios. Ainda hoje, por exemplo, fiquei a conhecer melhor o trabalho interessante de alguém. 
Mas pergunto-me, tal como nas noites de excesso e de embriaguez, se for suposto haver um dia seguinte, uma manhã depois das redes sociais, se ao acordarmos nos iremos lembrar do que aqui fizemos e de quem conhecemos. Ou se, como acontece em qualquer ressaca, vamos querer esquecer.

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1 comentário

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De Bea a 19.09.2018 às 09:23

Não creio que conheçamos - no sentido do verbo, cognoscere - pelas redes sociais, a aparência é muito pouco do que somos. Nos blogues, encontrar palavras de gente diversa, isso sim. Saber de pessoas por detrás, também. Rastrear-lhes gostos e manias - que podem ser fictícias -, idem. Talvez seja tudo espuma, sim. Mas atenção, a espuma é bonita e , em alguns casos, sinaliza o bom produto (não em todos, há espuma tóxica, suja, podre). Não se vive de espuma, mas também faz falta.

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