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Raízes

por Cristina Nobre Soares, em 28.08.18

Depois de deixarem os filhos no infantário, as mulheres ficavam a conversar no pátio.Geralmente falavam dos filhos ou sobre outras pessoas da terra. Filho de fulana, neto de sicrano, que trabalha no escritório, por cima da loja que era de não sei quem, ainda é meu primo, sabes? A dada altura, talvez por estranharem o meu silêncio, olhavam para mim e diziam, com uma certa condescendência, pois, tu não és de cá. Não “ser de cá” é ser forasteiro. E desengane-se quem pensa que é uma condição que passa com o tempo. Não, é uma condição permanente, que passa de pais para filhos, pois estes, os filhos dos forasteiros continuarão a ser forasteiros e, por isso, nunca são a primeira lembrança dos que já cá estão. São filhos de alguém a quem não se conhece as raízes, o passado, a família. Logo, não são dos nossos. E acabam por crescer mais sozinhos. Há uma crueldade nos meios pequenos, de que ninguém fala. E quem o faz passa por mesquinho, por beliscar o idílio que se tem das terras pequenas, o qual foi, em grande parte construído por forasteiros de passagem, que sonham com o dia em que possam largar o peso da rotina da cidade.
É verdade que na cidade acabamos todos por ser desenraizados, mas nas terras pequenas dói mais não ter raízes.

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3 comentários

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De Anónimo a 29.08.2018 às 12:04

É verdade, mas na realidade a quem interessa o que acontece com o tio do primo da vizinha da casa lá mais abaixo?
Vivo há 51 anos na mesma rua, tenho as ditas raízes e quando me falam assim, nem conheço ninguém, nem sei de nada e nem me interessa. Sim, sou uma alienada antipática e anti social :)
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De Anónimo a 30.08.2018 às 12:07

Muitas vezes o silencio prevalece. Abraços.
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De Mill a 05.09.2018 às 09:27

É isto sim

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