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Por Macau

por Cristina Nobre Soares, em 18.08.19

Em Santo Amaro, nos anos da passagem de Macau para a China, mesmo em frente à paragem onde eu apanhava o autocarro de regresso a casa, havia uma varanda com um grande pano preto que dizia “Por Macau” em letras pintadas a branco. Esse pano ficou lá pendurado durante anos.

Macau dizia-me muito pouco. A única referência que tinha, para além da do livro de meio físico e social, era a Raquel da minha turma na 3ª classe. A Raquel tinha nascido em Macau, mas por causa do trabalho do pai, que eu nunca soube qual era, os pais tinham regressado a Portugal. A Raquel tinha uns olhos amendoados que não eram bem orientais, mas também não eram como os da maior parte dos outros miúdos. E tinha uma espécie de caneta com oito cores de lápis que eu achava maravilhosa (escolhia-se a cor carregando nas cores na parte de cima da caneta). Invejava-lhe tanto essa caneta que a Raquel deixou-me levá-la para casa num fim-de-semana para eu poder fazer desenhos com ela. Não fiz desenho nenhum. Deixei-a guardada no fundo da mala da escola, sem lhe tocar, como se faz a um tesouro.

Tirando isso Macau não me dizia rigorosamente nada. Era apenas mais um resto anacrónico do império. Como eu o era. Como a Raquel. Como a Flora cujas histórias sofridas tanto me lembrei quando os alunos se juntaram no Pavilhão Polivalente da minha escola a cantar a canção do Luís Represas, por altura do massacre de Santa Cruz.

Enquanto esperava pelo autocarro tentava imaginar como seria a pessoa que pusera aquele pano. Seria um velho a cheirar ao mofo dos valores da Exposição do Mundo Português? Seria um macaense? Ou seria apenas um desenraizado como eu? Nunca soube. Assim como nunca mais soube da Raquel nem da Flora. Tudo boas histórias para contar. Mas o autocarro entretanto chegava, chega sempre, e a vida ainda faz conta comigo para jantar.

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1 comentário

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De Pedro Oliveira a 01.09.2019 às 20:19

Nem sempre os autocarros chegam, Cristina.
Às vezes estamos na paragem certa e chega o autocarro errado.
Outras estamos na paragem errada e não apanhamos o o autocarro certo.
Santo Amaro? Onde?
Parabéns pelo post e pelo blog; cativantes.

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