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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Platoon

Cristina Nobre Soares, 19.01.20

Quando o Platoon estreou no cinema do Centro Comercial Tropical a Patrícia gabou-se de o ter ido ver, apesar de ainda não ter idade. Disse que tinha entrado com uns amigos mais velhos, um deles já tinha dezoito anos, apalmou-me as mamas na segunda parte, comentou. Não duvidei, até porque a Patrícia parecia mais velha pela maneira como se vestia, como fumava e pintava os olhos, pela naturalidade com que falava com os rapazes e pelas coisas que já sabia por tê-las feito com eles. Perguntou-me se eu não ia ver. Não, dizem que é muito violento, respondi. Ela fez-me um sorriso de gozo, e disse-me, és uma maricas. Ela sabia do que falava. A Patrícia escolhia sempre filmes de terror ou de guerra no clube de vídeo, ignorando os meus protestos, não tem nada de especial, dizia-me, vais ver. E voltava a ignorar os meus protestos enquanto víamos o filme, ria-se à gargalhada, sempre que havia sangue, cabeças cortadas e membros decepados, com as pernas debaixo do rabo, a comer as bolachas de sortido que a avó guardava para as visitas, isto está tão mal feito, vê-se mesmo que é a fingir, destapa os olhos, dizia-me a rir-se e tentar tirar-me a mão da cara, és tão maricas, isto não tem nada de mal, tens medo de quê?
Foi o que ela me perguntou quando lhe disse que não ia ver o Platoon, tens medo de quê? Dizem que é muito violento, repeti. Quem o dissera fora a minha mãe. Não é filme para ti, sentenciara, como sentenciara de outros filmes, de outros livros, de conversas de adultos que me mandava sair da sala. E se os livros eu lia às escondias e as conversas ouvia-as atrás das portas, os filmes agradecia secretamente a censura. Por me sobressaltar com todos os tiros e emboscadas, por não conseguir suportar, sem fechar os olhos ou voltar a cara, qualquer cena que metesse sangue ou violência. Por ser uma maricas. Por ter medo de tudo. E detestei a Patrícia. Detestei-a profundamente por ter razão e por ser tão gira e tão fixe. E acima de tudo, por nunca ter medo de nada, por nem sequer saber o que era o medo. Detestei-a até à última vez em que estivemos juntas, já no 10º ano, num lanche forçado que a avó organizou para ver se nos voltávamos a dar. Nessa tarde, achei-a demasiado velha, cheia de olheiras e com as gengivas acastanhadas. Quando nos fechámos no quarto dela e eu recusei a passa de charro, fez a mesma cara de gozo e disse-me: és uma maricas.
(Vi hoje o Platoon)

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