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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Pernas como as da Gabriela

Cristina Nobre Soares, 11.08.20

A prima Odete nunca foi uma grande estampa, um mulherão. Tinha uma daquelas caras que de tão normais toda a gente esquece. E quando, por alguma razão, alguém precisava de descrever a prima Odete ficava-se pelo “muito morena, com penteado à Mireille Mathieu”, o que era bastante vago, especialmente se o interlocutor não gostasse de música francesa. A prima Odete também nunca pautou por grande sentido de estilo. Usava sapatos de pala e tacão, muito canastrões, e calças de pinça que conjugava com camisas estampadas, algumas de laçada, apropriadas para a formalidade que o emprego de bancária lhe pedia. Depois do divórcio passou a maquilhar-se mais um bocadinho, batom cor de vinho, a dar mais para o castanho, um risquinho de crayon nos olhos. Depois do divórcio perdeu uns bons quilos, com uma dieta passada por uma médica, comadre de uma colega de trabalho, que a obrigava a comer tostas da Diese e toranja todos os dias. Coisa com a qual a tia Maria Adelina resmungava, pois as tostas custavam os olhos da cara e toranjas nem sempre havia no mercado, só encomendando na mercearia do bairro.

- Como se fosse o raio da toranja que te fizesse perder os quilos...

Raramente se via a prima Odete com uma saia ou vestido. Tirando aquele vestido de malha vermelho que usara na sua primeira segunda-feira de mulher desquitada, tricotado pela tia Maria Adelina na máquina (comprada a prestações numa loja de electrodomésticos em Campo de Ourique) e uma saia rodada em crepe branco, tirada dos moldes de uma Burda de mil novecentos e oitenta e picos, sempre a viram ou de calças ou de bermudas largueironas, as quais ela usou durante as duas semanas de férias que fez em Portimão, durante os Verões de oitenta e seis a oitenta e nove. E era uma pena que ela andasse sempre de calças, pois, segundo os homens da família, a prima Odete, não sendo uma grande estampa, tinha umas ricas pernas. Ela sabia-o e por isso, mesmo doendo-lhe horrores a ponto de lhe trazer aos olhos umas lágrimas que parece que vinham da cana do nariz, fazia questão de tirar os pêlos das pernas com cera quente, todas as quatro semanas, às mãos de uma esteticista que vinha ao cabeleireiro do bairro e que também lhe arranjava as sobrancelhas e lhe tirava as peles roídas à volta das unhas:

– Não desfazendo, já me disseram que as minhas pernas são iguais às da Gabriela.

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