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Para que é que isso serve?

por Cristina Nobre Soares, em 09.05.18

 

Para que é que isso serve? Perguntamos tantas vezes, a propósito de tudo e mais alguma coisa: da matemática, da física, da química, da gramática, dos Lusíadas, dos Maias, da ginástica, dos trabalhos manuais, do crochet, do conhecer as constelações pelo nome, do assobiar com dois dedos, do aprender turco, maori, zulu, mirandês, de que lado se põe o guardanapo e o talher de marisco. Para que é que isso serve? Que depois também se estende às pessoas, que aquele amigo serve para os copos, é um pândego, o outro é bom ter por perto, especialmente para nos passear o cão e regar as plantas, pois nunca se esquece, aquela que nos ajuda com o IRS, então, vale ouro, fora o eterno ombro amigo, que dá um jeitaço para nos lamentarmos de tudo e mais alguma coisa. Fora a amiga que nos dá sempre um toque nos textos (sim, sou eu), o que tem bons contactos, dá jeito, e ainda o que dá umas boas quecas quando não há mais ninguém no horizonte. Ah, e o amigo médico. E o advogado. Tudo tem de servir para alguma coisa. Até nós. Nada mais demolidor do que nos dizerem “És um inútil”. Como se o sentido da nossa vida se medisse na nossa utilidade, estilo aspirador ou sofá, “Ah, este senta três pessoas e o tecido repele as nódoas, enquanto faz massagem às costas”. Nem a arte se livra deste aspecto utilitário com o espectro da rentabilidade a assombrá-la. Sim, há alguma coisa mais inútil do que a arte, cuja única função é tornar-nos maiores, transcender-nos a humanidade e emocionar aquele confim de nós que nem sabíamos que tínhamos? Sim, para que é que isso serve? 
Parece que não há espaço para inutilidade na nossa vidinha. Para aprender, simplesmente porque temos gosto em aprender coisas que podem nunca servir para nada. Para sermos curiosos, só por que sim. Pelo gosto da descoberta, de saber mais alguma coisa sobre o mundo.Para estar com pessoas sem préstimo nenhum para além o de tornarem as nossas vidas extraordinárias e cuja única mais-valia que nos trazem é o prazer de amá-las. A inutilidade, por vezes, faz-nos sentir maravilhosamente vivos. Que acho que é para isso que serve a existência. Que diga-se de passagem também não tem grande utilidade. É um castigo para se lhe tirar as nódoas e nem uma base para copos traz incluída.

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2 comentários

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De João Freitas Farinha a 09.05.2018 às 14:59

Tão inútil este texto. E tão maravilhosamente verdadeiro
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De Anónimo a 09.05.2018 às 18:49

Não há nada mais triste do que ser ignorante. Tudo o que aprendi até hoje, mais tarde ou mais cedo, me serviu para algo.

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