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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Para mim, o Natal será sempre um presépio numa lareira falsa. Onde o musgo era feito de retalhos de carpete verde, as manjedouras de cartão recortado e a estrela iluminada por uma lâmpada de vinte watts. Para mim, o Natal será sempre os solavancos e o guarda-freio no regresso da Baixa, onde a minha mãe comprava os presentes. É a rua do Arsenal iluminada por cima das nossas cabeças e os meus dedos a desenharem na humidade do vidro. É o disco com musicas de Natal cantadas po rum coro de crianças austríacas, que o meu pai punha, depois de terminado o presépio. Eu sabia de cor a ordem delas. Inclusive que no Adeste Fidelis, a agulha do gira-discos, saltava duas vezes. Para mim, o Natal é isto. Uma memória que se repete todos os anos, construída, não por aquilo que terá acontecido, mas por aquilo que só os nossos olhos viram. É um pequeno hiato temporal a que nos permitimos uma vez por ano e voltamos lá, um lá sem sitio, porque o transportamos connosco. Repetimos gestos, hábitos , palavras, sem perguntarmos o porquê de o fazermos. Só para nos possamos repetir. Que nos repitamos, então. A agulha do gira discos saltou pela segunda vez e eu sento-me com as minhas pernas de nove anos cruzadas à chinês, a imaginar aquilo que acabei por nunca ser, de olhos posto no presépio. Que nos repitamos. Que é como quem vos diz: Tenham um bom Natal.
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