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O Bufo da Pide

por Cristina Nobre Soares, em 28.11.15

(Uma das personagens da Exposição Assombrados)

 

O_Barbeiro.jpg

 

 

A mania de espreitar por entre portas e ouvir as conversas que não lhe diziam respeito enfiara-se-­lhe no corpo desde os tempos de gaiato, em que, para se aliviar do calor que o queimava entre as pernas, se punha a espreitar a filha da madrinha, a Piedade, enquanto esta se lavava na casa de banho. Nem mesmo quando o pai o apanhou e lhe esfolou as costas com o cinto, lhe passou o vício de tomar atenção à vida dos outros.

Talvez tivesse sido por isso que aos dezasseis tivesse dito que não queria mais estudos e começasse a aprender o ofício de barbeiro com o tio. Isso e ter emprenhado a filha da madrinha nas festas de Agosto, depois de a ter convencido que a aguardente era boa para a bronquite. Agora, tens de arranjar sustento para o filho que lhe fizeste. Por isso, tu toma atenção, disse-­lhe o tio passando-­lhe a vassoura para a mão, que os cantos também são para serem varridos.

O primeiro filho a nascer-­lhe, tu toma atenção, e o tio a explicar-­lhe como se passava a navalha na curva do pescoço dos outros. Os clientes a abrirem as bocas ensaboadas sobre o que não lhes dizia respeito, o dinheiro a não chegar e a mulher a berrar-­lhe que já ia para  além de dois meses o que deviam na mercearia.

Tu toma atenção, e ele a bufar ao chefe da guarda que o filho do alfaiate escondia propaganda comunista por entre as peças de fazenda que vinham de Lisboa. Tu toma atenção, a mulher a lamentar­-se das pernas tortas do filho mais velho, enquanto paria o terceiro, e a taberna onde se juntava o reviralho a ser fechada às tantas da noite.

Tu toma atenção, os clientes a cerrarem as bocas cheias de sabão e medo,o chefe da guarda a cobrar-lhe a falta de novidades, a mulher a chorar-lhe falta de agasalhos e meias solas e ele a lembrar-se que o carteiro era seu primo direito, e que a família é para as aflições.

E fez, então, uma espera ao primo, um simplório, que andava embeiçado por uma francesa que tinha a escola toda e que recebia muitas cartas com umas letras escritas ao contrário. A língua do carteiro a soltar-se logo à segunda aguardente, ele a subir as escadas da casa do chefe da guarda, que por alguma razão só se gastavam do lado direito, as notas a aparecerem-lhe por debaixo da samarra, e a francesa, que afinal era russa, morta nas escadas do quintal.

Morreu bêbada diziam, ou isso ou esganada e o primo desorientado a cruzar-se com ele por debaixo do candeeiro, e a dizer-lhe mataste-me o amor da minha vida, meu cabrão, ele a dizer que não, que não, tem lá mas é calma, e a faca do carteiro a enterrar-se-lhe treze vezes pelo corpo dentro. E dizem que ainda hoje, mas isso são coisas da ignorância do povo, por debaixo do candeeiro cuja luz nunca se apaga, se ouve a voz do carteiro suja de sangue a dizer: Tu toma atenção.

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