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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Números imaginários

Cristina Nobre Soares, 05.01.20

Vim sentar-me cá fora. À hora em que as nossas sombras ficam maiores que a gente, como ouvia dizer a uma vizinha que morava duas casas abaixo de uma tia minha e que se vinha sentar, enquanto cortava a hortaliça da sopa para dentro de um alguidar, nos degraus de pedra à entrada da casa, por entre os vasos de sardinheiras e hortênsias que faziam o lugar do gradeamento.

(Os meus vizinhos da última casa brincam com a filha que já anda. E eu comento para dentro, sem saber se me ouvem, a bebé da casa do fundo já anda, isto passa a correr, caramba.)

E já estamos noutro ano, diria essa minha tia, duas casas acima da vizinha dos degraus de pedra e dos vasos de sardinheira, má raça do tempo, que ainda ontem tinha a vossa idade e num instantinho fiz-se-me velha. Fico a empreender nessa coisa do tempo e na discussão que vai no meu mural sobre se afinal começou a década ou se começa para o ano, se há ano zero ou não há.

(Os meus vizinhos entraram em casa.)

Lembro-me da vez em que o meu irmão me explicou que havia números “atrás” do zero, no Verão antes de eu entrar para o ciclo. Puxou de uma folha e traçou uma linha com um zero no meio. À direita os números que conhecia, até a uns pontinhos a fazer de infinito. À esquerda os mesmos números mas com um menos à frente. E os mesmos pontinhos a fazer de infinito. Não fiques tão espantada, um dia vais aprender que existem muitos mais e uns que até se chamam números imaginários. Lembro-me que não percebi muito a explicação dos números negativos que o meu irmão me deu, mas achei formidável na mesma.

(Estou cá fora, grito para dentro, ao “Onde estás?”, vindo do corredor.)

O céu ficou púrpura. É sinal que amanhã está bom, diria a tal vizinha das sardinheiras. Já nem sequer há sombras no chão. Mas já se notam os dias. Janeiro fora uma hora, ela com alguidar encaixado na anca, o pé a travar a porta e a faca de cabo de madeira na outra mão, e quem bem procurar mais meia hora há-de encontrar.

(E antes dos números imaginários ainda vieram os irracionais, penso, antes de entrar em casa.)

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