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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Diz-me que viu um vídeo de uma cidade destruída. É na Síria, não é, mãe? Respondo-lhe que sim. Por isso é que eles têm de fugir. Fica em silêncio enquanto toma o pequeno-almoço. Depois pergunta-me novamente sobre os atentados de Paris. Sobre as mulheres violadas na Alemanha. Comenta que ouviu, não sei onde, que as mulheres sírias se recusam a ser vistas por médicos do sexo masculino. Silêncio de novo. Não tens medo, mãe? Fecho a torneira do lava- loiça e enquanto limpo as mãos ao pano, penso o que lhe responder. Digo-lhe sim. Que claro que tenho. Que o mundo não vai ficar igual ao que conhecemos. Que vai mudar. Irremediavelmente. Que sim, tenho medo sempre que há um atentado algures na nossa imaculada Europa. Que tenho dúvidas quando vejo mulheres de cabeça tapada, irmãs adultas que obedecem a irmãos pequenos, mulheres que se recusam a serem vistas por médicos. Sim, tenho medo, digo-lhe. Que tenho dúvidas. Mas que é normal termos medo. Que é o nosso instinto de sobrevivência. O mesmo que leva as pessoas a cometerem erros, a fazerem más escolhas, a terem preconceito. Silêncio de novo. Eu também tenho medo, mãe. Mas também tenho pena. Já viste se fossemos nós? Encosto-me ao lava-loiça, e digo-lhe, mas podíamos ser nós. Não tem mal termos medo. Pensa que da mesma forma que teremos de conviver com os lenços que lhes tapam as cabeças, também elas terão de conviver com as nossas cabeças destapadas. E isso não é medo. É confiança. Não tem mal termos medo. O que tem mal é o que fazemos com ele.
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