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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
A capacidade que nós, mulheres, temos de gerar vida no nosso próprio corpo é um milagre. Mas maior milagre do que esse é a nossa própria existência. E essa, não pode depender do género com que nascemos. Ao pensar nisto lembrei-me de mim há mais de dez anos atrás, depois de ter sido mãe. E esta história não é sobre epifanias, nem transbordares de alegria. É mais uma vez uma história de crescimento e de perda de medo de ser diferente. Nela mora uma mulher de trinta anos que se descobriu uma fêmea menos apta e que cujo útero, não só pariu uma cria maravilhosa, como também, as suas próprias imperfeições. Uma mulher que, ao contrário do que ouvia das outras, para quem a maternidade era um instinto básico, sem qualquer tipo de sombras, teve de construir esse mesmo instinto de fora para dentro. Não foram dias fáceis. Lembro-me que durante meses, não havia manhã em que não me fechasse na casa de banho, a chorar, para me tentar esvaziar da culpa imensa de não conseguir abraçar essa imensa dádiva da maternidade. Lembro-me das pessoas me dizerem, ao olharem para o meu emagrecimento a olhos vistos, “nem parece que tiveste um filho”. O que elas não sabiam é que o meu corpo mirrava, secava, nesse duro esvaziar de emoções. Lembro-me que me angustiava conviver com outras mães, por não ter nada para dizer. Limitava-me a imitá-las numa mímica violenta e crudelíssima para comigo. Deixei de escrever por ter medo do que sentia. Deixei de ser eu, na esperança desesperada ser como as outras, a quem tudo parecia ser tão fácil. Descobri depois que não era bem assim. Que havia criaturas, mulheres, que tinham sentido dias tão cinzentos como os meus, bem fora da fronteira do "suposto". Mas essas mulheres também não falavam, quanto muito algumas palavras ditas a meia voz, com medo dos julgamentos e certezas dos outros. Sempre o medo. E foi isso que me levou a escrever este texto. O perder o medo de dizer que eu não vivi nenhum idílio maternal. Que a beleza do processo mora no crescimento que fiz junto da minha filha. Que aprendi a andar com ela. Aprendi a brincar. A dar colo. A não ter vergonha de chorar quando caía. Que a maternidade é o mais maravilhoso juntar de letras, principalmente para quem, como eu, era uma analfabeta maternal. E era esta a história que vos queria contar. Agora, a minha filha está a chamar-me para irmos ver mais um episódio da Violetta. E ao enroscar-me com ela no sofá por debaixo da manta, ao sentir-lhe aquele cheiro de cria, ao rirmos-nos com gosto, vejo que fizemos as duas um bom trabalho. E penso: Sobrevivemos. Que é o mais humano dos confortos.
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