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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Quando começou a circular esta hashtag pensei, não tenho nada para escrever, devo ter sido a única mulher do mundo que nunca foi assediada. Não me lembro de nenhum episódio que possa contar. Só me lembro ter aprendido a desviar os olhos na altura certa, a tapar-me, compor-me, não rir alto, a mudar de conversa, a endurecer a voz, a sair da sala no momento certo, a procurar outra com mais gente, a não andar sozinha de noite, nem em sítios vazios de dia, a fingir que telefonava a alguém e às vezes a telefonar mesmo, cheia de medo, a vestir-me de forma a que não reparassem em mim, a sentar-me de pernas juntas, a limpar o baton com as costas da mão para não dar nas vistas, a medir o tamanho dos saltos e das saias, a atravessar a rua quando ouvia uma boca ordinária, a baixar os olhos como se a culpa fosse minha, a desviar-me do bafo do gajo no autocarro, a empurrar o que me apalpou as mamas, a decorar a matrícula do táxi, a desculpar o gajo bêbado que tentou naquela noite ou aquele que ainda estava sóbrio e o que tentou trancar a porta sem que eu percebesse. Só me lembro de ter aprendido a fingir que não percebia, que não via, que não ouvia, a fingir que não acontecera. Deve ser por isso que não me lembro de mais nada. Deve ser por isso.
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