Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Há um casal novo que se aproxima. Ficam perto de nós a tirar fotografias às ondas e aos chorões da praia. Não falam, apenas fotografam com o telemóvel. Mais à frente, duas mulheres tiram selfies com o mar em pano de fundo. Quando dava aulas de detecção remota, numa outra vida, perguntava sempre aos alunos se sabiam qual tinha sido a primeira máquina fotográfica da humanidade: os olhos. As outras, as que tinham vindo depois, só nos tinham trazido a capacidade de guardar as nossas imagens, as nossas memórias num suporte físico. Para que mais tarde pudéssemos recordar. E escrevia o slogan da Kodak no quadro, sublinhando "o mais tarde" e o "recordar". Agora, com o digital, deixámos de usar as fotografias para mais tarde recordar, mas sim para mostrar aos outros, para partilhar. E pergunto-me se, em troca desta necessidade de sermos permanentes, num sítio que nem sequer existe, não nos estaremos a esvaziar de memória. Sem sais de prata que nos revelem e nos guardem num papel qualquer, corremos o risco de sermos apenas uma vaga lembrança dos outros.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.