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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Memórias e fotografias

Cristina Nobre Soares, 25.02.18

Há um casal novo que se aproxima. Ficam perto de nós a tirar fotografias às ondas e aos chorões da praia. Não falam, apenas fotografam com o telemóvel. Mais à frente, duas mulheres tiram selfies com o mar em pano de fundo. Quando dava aulas de detecção remota, numa outra vida, perguntava sempre aos alunos se sabiam qual tinha sido a primeira máquina fotográfica da humanidade: os olhos. As outras, as que tinham vindo depois, só nos tinham trazido a capacidade de guardar as nossas imagens, as nossas memórias num suporte físico. Para que mais tarde pudéssemos recordar. E escrevia o slogan da Kodak no quadro, sublinhando "o mais tarde" e o "recordar". Agora, com o digital, deixámos de usar as fotografias para mais tarde recordar, mas sim para mostrar aos outros, para partilhar. E pergunto-me se, em troca desta necessidade de sermos permanentes, num sítio que nem sequer existe, não nos estaremos a esvaziar de memória. Sem sais de prata que nos revelem e nos guardem num papel qualquer, corremos o risco de sermos apenas uma vaga lembrança dos outros.