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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
A dada altura, na minha rua, começaram a aparecer as marquises. As varandas deram lugar a uns caixotes de alumínio e vidro, umas com estores, outras com cortinas. O meu pai começou a dizer que também queria fazer o mesmo com a varanda da frente. A minha mãe torceu o nariz, disse que era parolo. O meu pai encolheu os ombros, lá estás tu, precisamos de espaço para guardar a tralha, nunca usamos a varanda e assim ficamos com mais uma divisão para os arrumos, olha para os livros, por exemplo. A minha mãe continuou a torcer o nariz, que os livros ali ficavam comidos do sol, mas o meu pai acabou por levar a ideia avante. Mandou pôr uns estores laminados (e assim os livros não debotavam, dizia ele) e uma estante até ao tecto, vê lá se varanda ainda cai com o peso dos livros, avisou a minha mãe, cujas premonições rasavam um bocadinho o absurdo, sem grandes ligações às leis da física, só este homem para se lembrar de fazer uma biblioteca na marquise. Só este homem.
Fui em quem arrumou os livros por ordem alfabética de autor. Mais tarde, organizei-os por temas, onde os livros de política do meu pai ganharam uma prateleira só deles e os da colecção Dois Mundos ficaram todos juntos. Passei muitas horas na marquise, às vezes, só à janela que dava para a António Sérgio (embora me ficasse bem dizer aqui que passava o tempo todo a ler, mas sempre fui dada a muita futilidade sem interesse nenhum, que há futilidades com interesse e que dão jeito, como saber quem é quem e de onde vem) , a pensar como seriam por dentro as outras marquises da minha rua, ou apenas em coisas disparatadas, como a probabilidade da varanda cair realmente com o peso dos livros.
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