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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Manica-Sofala

Cristina Nobre Soares, 24.04.18

Quando se começava a aproximar o feriado do 25 de Abril lembravam-se sempre que eu era retornada. Havia sempre algum pai, tio, primo, conhecido que tinha estado na guerra do Ultramar por “minha causa”. Havia sempre algum miúdo que dizia que os meus pais eram fascistas. Havia sempre algum miúdo que dizia que andávamos lá a explorar os pretos, que se aquilo era tão bom que lá tivéssemos ficado, que voltássemos para lá e não roubássemos os empregos dos que cá estavam, que só sabíamos andar na mama do IARN. Eu nem sequer sabia o que era o IARN. Aprendi a omitir o sítio onde nasci. Tinha vergonha. Beira. Manica-Sofala. Manica-Sofala. Manica-Sofala. Já era adulta quando o disse sem ser a meia-voz, sem doer. Quando também já não doía a ninguém quando eu o dizia. Já era adulta quando me deixei pertencer à terra onde tinha nascido.

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