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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Longe da vista

Cristina Nobre Soares, 17.10.19

Hoje, por causa da chuva da madrugada, não se podia passar no caminho da casa dos cães. Tive de dar uma volta maior. Aproveitei para reparar em casas nas quais, ao fim destes anos todos de aqui estar, ainda não tinha reparado. Não são muito diferentes das outras que já conheço, com os seus painéis de azulejo, geralmente a evocar um santo ou apenas com o nome da casa, resultado da junção dos nomes próprios dos donos e os seus jardins atravessados por caminhos a fingir, feitos de bocados de pedra, cheios de plantas, um limoeiro, duas cameleiras, uma buganvília, um hibisco cheio de piolho, vários canteiros de jarros e hortências junto às escadas, deixando apenas pequenas manchas de escalracho à vista, onde não cabe um pé, nem um pequeno de criança. É engraçado este medo que temos do vazio, seja dos espaços amplos, sem nada, seja do silêncio. E por causa deste medo enchemos paredes, divisões e silêncios com inutilidades. Como aquelas casas onde todas as paredes têm um móvel encostado ou estão cobertas por quadros, fotos, pratos, relógios, tapetes a taparem todos os bocadinhos de soalho, cestos e vasos com plantas no espaço vazio dos cortinados, medalhas, bibelôs, molduras com retratos dos filhos a encher todas as prateleiras, sofás cheios de almofadas e mantas, topos de frigorífico cheios de recordações de férias e potes que nunca se encheram. Temos muito medo do vazio. E da chuva. Quando cheguei ao café, parou um carro em cima do passeio, a condutora ligou os dois piscas e depois correu para dentro do café, com a carteira em cima da cabeça. Depois, lá dentro, disse, olha, está a engrossar, e olharam todos pela janela. Há coisas que, tal como os jardins, para algumas pessoas talvez sejam só para ver de longe. Outras, como as paredes vazias, há-que mantê-las longe da vista.

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