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Jorros

por Cristina Nobre Soares, em 23.08.18

Ponho a cafeteira italiana ao lume e, enquanto espero que o café suba, reparo na luz que se espalha em leque pelo chão da cozinha. Lembro-me de um livro, da Pearl Buck, que começava com a protagonista a acordar, enquanto “a luz a entrava a jorros no quarto”. Na altura, em plena adolescência, achei a imagem belíssima, tanto que todos os meus textos e composições tinham sempre, em algum sítio, luz a entrar a jorros. Hoje, acho-a um cliché, daqueles que arrancam um certo revirar de olhos. Arranjo alternativas menos óbvias, mais cruas, mais verdadeiras. Isto é o que eu digo. Mas a verdade é que, para mim, esta luz entrará sempre a jorros. É nessa palavra que penso primeiro, mas não o admito. Tenho muita vergonha dos clichés que vivem paredes meias comigo e tapo-os com as saias das conveniências. Baixo o estore, daqui a pouco vai estar um calor insuportável. Apago o lume depois do borbulhar rouco da cafeteira, continua a não me ocorrer uma alternativa para jorros e deixo-me ficar na penumbra, a beber café.

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