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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Já fui gorda. Já o tinha dito uma vez, num texto qualquer. Digo-o de novo, já fui gorda. E apesar de agora ser magra, acho que nunca deixei de ser gorda. Porque a gordura é um estigma que se nos mete na pele. Quando somos gordos, os outros quase que têm pena de nós: tão bonitinha e tão gorda, é uma pena. Ainda por cima diz que é muito inteligente. Uma pena, ter-se deixado chegar àquele estado. Ter-se deixado engordar. Porque para os outros, os gordos são criaturas desleixadas, fracas, sem força de vontade. Não engordam, deixam-se engordar. Era só deixar de comer porcarias e mexer o rabo. Mexe-te mais, come menos, olha as outras da tua idade, não comas isso, veste-te de preto, que o preto emagrece e assim, com sorte, ninguém dá por ti. Ser gordo não dói. O que dói é sentir que somos menos por dentro, por não termos essa vontade férrea dos magros a quem lhes assenta tudo bem. Aos gordos nada fica bem. Nem a vida. Essa, então, parece que nos fica sempre arrepanhada nas costuras. A vida foi, de certeza, alinhavada num corpo magrinho. Os números acima não são bem uma vida. É um deixar andar. Ser gordo, não dói. O que dói é a pena nos olhos dos outros, como se fossemos menos. Tão novinha e tão gorda. Tão pesada para a idade. Coitada. Já não sou gorda por fora. Mas há dias que me esqueço e apesar de magra volto a ser gorda por dentro.Se calhar, por dentro, sempre fui pesada para a idade.
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