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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Escrevi um texto passado no corredor de uma escola, instantes antes de eu entrar para uma reunião de pais. Nesse texto falava de duas mães que comentavam entre si a medicação que davam aos filhos hiperactivos. Que depois falaram dos comprimidos que tomavam para dormir. E depois do que iam fazer para o jantar, sobre o gradeamento de uma que caíra com o temporal, mas que o seguro não pagava e da ferida num pé da outra, que afinal era por causa de um fungo, mas que tinha sido preciso a rapariga nova que estava na farmácia perceber o que aquilo era, que a enfermeira do centro de saúde não fizera grande caso. Descrevia uma como magra, de olhar cansado e cabelo pigarço e mal preso num rabo-de-cavalo. Sobre a outra falei apenas da mala de imitação de pele verde, esfolada nas costuras pelo uso. Podia ter falado do cabelo pintado da dona da mala esfolada, mas não me apeteceu, era avermelhado, saltei logo para uma lâmpada do corredor intermitente, que zumbia sempre que voltava a acender e para uma contínua antipática que se queixou disso. Terminei com uma coisa qualquer sobre a normalidade. Não publiquei o texto. Ninguém iria comentar a intermitência da normalidade, nem o gradeamento que o seguro não pagara, nem as insónias das mães, nem a antipatia da contínua, nem o fungo no pé. Iriam chamar-me à atenção que já não são contínuas e discutir a questão da hiperactividade. E a luz do corredor continuaria a piscar até que a professora nos dissesse que podíamos entrar na sala.
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