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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Fruta cristalizada

Cristina Nobre Soares, 18.11.20

Ao contrário da Prima Odete, que vivia para esta altura do ano, a prima Maria Isabel tinha uma embirração particular pelo mês de Dezembro. Não gostava de bacalhau, achava que o Natal era mais uma forma de opressão pelo consumo desenfreado, dizia que o Pai Natal era apenas uma caricatura da água suja do capitalismo americano e no que dizia respeito à religião, limitava-se a revirar os olhos.

Mas, na verdade, a embirração da prima Maria Isabel tinha a ver com uma certa tristeza que os dias curtos cheios de humidade e cheiro a fritos lhe causavam. A pastelaria onde bebia café a meio da manhã todos os dias tresandava a azevias e filhós a partir de dia nove de Dezembro. Eram dias de uma certa agonia.

- É o costume – dizia para o empregado de bigode, ao chegar ao balcão.

Este gritava, “Sai bica! “ e lembrava-a que só aceitavam encomendas de Bolo-rei até dia vinte e um.

A prima Maria Isabel agradecia e acrescentava.

- Não sou grande apreciadora de frutas cristalizadas.

Facto que mudou em Dezembro de mil novecentos e noventa e dois, quando, na Confeitaria Nacional, conheceu o Nuno Maria. Afortunado encontro que lhe trouxe as maravilhas da casca de laranja cristalizada com chocolate e um grande amor e assim lhe superou para o resto da vida a melancolia causada pela mudança da hora de Inverno e alguns assentos à direita da bancada parlamentar. Mas, até morrer, a prima Maria Isabel recusou-se a compactuar com a história do Pai Natal e a fazer o presépio, dizendo:

- É nos detalhes que se revelam os princípios de cada um. O resto é a vida.

 

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