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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Cedo aprendi a não falar sobre a morte. Raio de conversa essa, não se fala disso que põe as pessoas tristes, deves ser mórbida. Tinha dezasseis anos quando fui pela primeira vez a um funeral. Não sabia que não se podia ir de mini-saia. Também não sabia que não se pode falar de tudo ao pé de um morto. Muito menos rir. Diz que o riso e a morte não se dão. Que a morte acha que o riso lhe falta ao respeito. Aprendi por isso que a morte era uma pessoa séria, a cheirar a flores maceradas e a velas de casa mortuária. E que as pessoas mais facilmente se deixam ficar mal com a vida do que com a morte. Com a morte toda a gente tem medo de se zangar. Aprendi também que as pessoas não sabem falar sobre a morte porque não aprendem como. Dizem todas as mesmas coisas, as mesmas palavras gastas, manuscritas em cartõezinhos agrafados nos ramos das flores, os meus sentimentos, os meus pêsames, eterna saudade. As pessoas não sabem lidar com a morte na mesma medida que não sabem lidar com o silêncio. O silêncio faz parte das palavras que dizemos e ouvimos. Só se consegue amar as palavras em todo o seu corpo quando perdemos o medo do silêncio. E a morte é apenas um silêncio para sempre. Precisamos dela para dar sentido a uma vida de palavras.
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