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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Falar disso para quê?

Cristina Nobre Soares, 17.04.19

Nas famílias, muitas vezes, depois de episódios de mágoa ou de vergonha, gera-se uma paz podre. Um silêncio. Que se confunde com esquecimento, mas é muito diferente. Este silêncio enche uma sala, tira o ar, toca-se. Mas ninguém o quebra. Espera-se que passe, como se fosse uma gripe. Às vezes, há alguém, geralmente um velho que já não tem nada a perder ou o maluco da família, que toca no assunto. E os restantes agitam-se nas cadeiras com o desconforto, isso não é assunto para falar à mesa, isso são águas passadas, o que lá vai, lá vai, o que interessa isso agora? E tudo volta à normalidade de sempre, para que depois se possa dizer: nesta família não há conflitos, nesta família não há mágoas, neste país não há ressentimentos, neste país não há más memórias, não morreu ninguém na guerra, nem ninguém matou ninguém, não houve presos políticos, não havia miséria, não havia espinhos contra os retornados, nem contra os comunistas, nem contra os reaccionários, nem contra os latifundiários, nem contra os piquetes de greve, nem contra os pretos, nem contra os brancos de segunda. Não, isso nunca é bem assim, ou são tudo águas passadas, as mágoas não se sentam à mesa, o que passou, passou, o que interessa é que pareça que está tudo bem. Falar disso para quê?

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