Essa gente
Quando a prima Odete descobriu que a deslavada da Anabela tinha vindo de Luanda, passou a embirrar com todos os retornados e a referir-se a eles como “aquela gente”. Dizia que tinham a mania, que tinham vivido à custa do IARN , que tinham trazido droga e dado cabo da miudagem de cá, que se aquilo lá era tão bom que voltassem para a terra deles.
- Olha que não é bem assim, Détinha… – Dizia-lhe a tia Maria Adelina.
A prima Odete ficava danada com quem tentasse defender os retornados. Levava aquilo mesmo a peito, claro que era bem assim, “aquela gente” devia voltar para a terra deles e não andar cá a roubar o que era dos de cá. O emprego, por exemplo.
- É mesmo o desemprego que te dói, Détinha?
- Mas afinal de que lado é a que mãe está?
E a tia Maria Adelina desconversava, falava da novela, da vizinha maluca do terceiro, que deixava o lixo no patim e era um cheiro que não se podia, dos acabamentos da saia e casaco que fora buscar à modista, com aquele corte de fazenda que comprámos na Rua Augusta, lembras-te? Agora é um castigo para me fazer as coisas a tempo e horas e bem acabadas. Qualquer dia começo a vestir-me só no pronto-a-vestir. É que não fica mais caro do que mandar fazer, o que é que tu pensas? E há coisas tão jeitosas, mas é um castigo encontrar número para mim. Uma pessoa enforma com a idade e não há nada que lhe sirva.
- É gente que não interessa a ninguém. – Repetia a prima Odete.
A tia Maria Adelina levantava-se e fazia-lhe uma festa na cabeça.
- Tudo passa, filha. Vai cada um à sua vida e daqui a uns anos já ninguém se lembra de nada.
A prima Odete apagava irritada o cigarro na borda do pires.
- E depois de esquecermos tudo ficamos com o quê?
