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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Erros ortográficos

Cristina Nobre Soares, 18.03.20

Fui ao supermercado. Tudo muito calmo, nada de prateleiras vazias. Tirando o açúcar, que não havia, coisa que me deixou intrigada. Fiz uma piadola mental com o facto das pessoas estarem a levar a clausura mesmo a um nível conventual. E fiquei a pensar se o açúcar que ainda tenho em casa é suficiente para o bolo que queria fazer amanhã, que é dia do pai. É capaz de chegar, senão faz-se outra coisa, penso. Inevitavelmente lembro-me do bolo de rum com passas e creme de manteiga, que se fazia por esta data, em casa dos meus pais. Eu recortava a extremidade de um bocado de cartão, de modo a ficar aos bicos e depois arrastava-a por cima da superfície do creme para marcar o ondulado. Era tão bom aquele creme. Mas eu sei que o bolo foi só um pretexto para me lembrar do meu pai.

Semanas depois de ter morrido, ao ajudar a minha mãe a arrumar as papeladas dele, descobri uma carta que ele escrevera ao seu grande amigo Zé (companheiro, como se chamavam um ao outro). Escrevera-a logo depois do retorno. Uma carta que nunca enviou. Três folhas A4, dactilografadas, com erros ortográficos inesperados a revelarem que teria sido escrita de rajada. Para desabafar, talvez. Para fingir que falava com alguém. Fiquei sentada no chão da sala a lê-la e percebi que nunca conhecemos realmente os nossos pais. Conhecemos apenas a imagem que deles construímos. Entreguei em mão essa carta ao seu destinatário, que me contou mais umas aventuras do meu pai. Rimo-nos um bocado (o meu pai tinha um extenso rol de histórias caricatas). E no fim, o Zé disse-me, com os olhos cheios de lágrimas, era um bom homem o teu pai. Fez uma pausa e acrescentou, mas muito machista. Muito machista. Eu fiz que sim com a cabeça, pois era. Tivemos grandes zangas por causa desse machismo. Zangas mesmo muito feias, ainda mais feias do que aquelas que tínhamos por causa da política. Engraçado, agora raramente me lembro dele como o machista que realmente era. A memória é dona de uma generosidade conveniente.

O Zé, a quem eu e os meus irmãos chamávamos tio, o tio Zé, que sem levantar a voz tinha o condão de acalmar as opiniões inflamadas do meu pai, ó Mário, olha que não é bem assim, dizia ele enquanto mexia os cubos de gelo do whisky, com o indicador, o tio Zé também já morreu.

Pago as compras e penso que tenho de dizer à minha mãe que consegui comprar-lhe tudo o que me pediu, menos o álcool. Não havia. Não havia açúcar, digo quando chego a casa. Faço amanhã um crumble com o que aí tenho. A minha filha pergunta ao pai se ele concorda, afinal é o teu dia, diz-lhe. Ele responde que sim, que é uma óptima ideia.

E eu sento-me ao computador a escrever isto de rajada. Felizmente que tenho corrector ortográfico

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