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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em que pensas tu?

Cristina Nobre Soares, 08.11.20






Hoje, quando acordei, chovia a cântaros. Da minha janela só se via uma cortina cinzenta. Parece aqueles desenhos animados de leste que passavam no programa do Vasco Granja, comentei. Ou aqueles japoneses em que havia uma criancinha órfã à chuva. Quando parou de chover e abriu um bocadinho, fui ao quintal que está cheio de folhas dos carvalhos que vivem do outro lado do muro. Tenho de esperar que o chão seque para varrer as folhas. O Outono é um trabalho de Sísifo no meu quintal. Fiquei cá fora, a pensar nos livros que tenho em cima da mesinha da sala e que ainda não li, no barulho da água nas valetas, um sinal de que chovera realmente muito e que há muitos domingos que não tinha nada urgente para fazer. Só mesmo isso, a pensar nos livros que tenho para ler, nas folhas no quintal e na chuva dos bonecos japoneses e do Vasco Granja. Como eu odiava de morte esses bonecos que eu só via na esperança que ele passasse a Pantera Cor-de-Rosa. Fiquei ali, em pé, imóvel, tão imóvel como ficava em criança, sentada no chão do meu quarto com as pernas à chinesa e a minha mãe a perguntar, em que tanto pensas tu? E eu a dizer-lhe sempre, em nada, talvez já na altura soubesse que os nossos nadas, por não terem espaço no nosso, sobejam quase sempre no entendimento dos outros. Voltei para dentro e comentei, devia ter dado mais uma demão de protector nas cadeiras do jardim. Em que pensas tu? Perguntou-me o Facebook. Em nada, respondi-lhe eu.