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E hoje, em Óbidos, foi uma lenda que se contou

por Cristina Nobre Soares, em 27.12.14

(Esta lenda foi-me "encomendada" para o evento da Magia da Transformação, que decorreu durante a passada Vila Natal, no espaço Ó, em Óbidos. Não é uma lenda verdadeira. Daquelas repetidas através de gerações. Mas a tradição começa quando quisermos)

 

 

A lenda da moura sem voz 

Dizem que quando os cristãos tomaram o Castelo, os infiéis, os que não tinham sido presos ou sucumbido sob a força da espada, fugiram rumo ao Sul. Todos, menos uma: a sétima filha do alcaide mouro. Uma donzela de olhos cor de chuva, cor inverosímil  para uma descendente do deserto, que nascera desprovida de voz e palavras. Uma maldição, lamentara a mãe, uma maldição por ser a sétima. E talvez por isso lhe tenham  dado um alaúde, quando ainda as suas pernas eram trôpegas no andar. Para que assim, pudesse falar com o mundo. Dizem que nunca quisera  noivo ou outro amor, que não o que encontrava na música que lhe pingava dos olhos cor de chuva.  Dizem, que durante a tomada do castelo, foram feitas prisoneiras as suas seis irmãs e que ela por alguma razão sem lógica ou motivo  (talvez magia), conseguiu fugir.  E que ela, em vez de rumar ao Sul como todos os outros, terá numa certa encruzilhada, regressado até à casa de um mago que vivia nas margens da Lagoa. Este leu-lhe o pedido de auxilio nos olhos cor de chuva  e entregou-lhe sete capas de burel bordado, dizendo, estas, à luz da lua serão invisíveis aos olhos dos outros. Assim que a noite desça no poente toca o teu alúde,  que a poeira mágica da  tua música adormecerá os soldados. Ela assim o fez. Sentada na proa de um pequeno barco sem velas nem remos, dedilhou as cordas mal o último resto de sol se diluiu no horizonte. Os olhos dos cristãos cerraram-se num sono profundo e as portas abriram-se à passagem das irmãs. Ao embarcarem, estas vestiram as suas capas de burel bordadas e confundiram-se com o luar. Mas ao zarpar, as águas ondularam-se por um sopro do vento de Norte e o alaúde caiú na lagoa. Um grito, um ai, rasgou-se-lhe nas entranhas, o primeiro som que alguma vez lhe ouviram, e a capa resvalou-lhe para os ombros, deixando a descoberto o rosto e os cabelos negros.  Dizem que se acenderam os archotes nas ameias, que tocou o sino de alerta.  E  que ela, para  que as suas irmãs não fossem descobertas,  suspirando, se deixou mergulhar nas águas da lagoa, no mesmo sitio onde se afundara o alaúde. Dizem, daquele dizer que se jura a pés juntos, que no primeiro luar de Janeiro, se ouve de novo a música nas margens onde sopra o vento norte. E que  quem olhar, mas com os olhos de quem acredita antes de ver, verá reflectido na tranquilidade das águas, o bordado da sua capa de burel.

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