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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Resolvo terminar o trabalho por hoje. Foi um dia produtivo, mas também cansativo. Olho pela janela. O fim de tarde enevoou. As árvores nuas em contra luz ganham um contorno de espíritos. De espíritos, não de fantasmas. Quando era criança tinha muito medo de fantasmas. A Patrícia contava-me histórias arrepiantes de mortos e almas penadas só para me assustar. Eu ficava aterrorizada e, à noite, não conseguia a adormecer. Todos os sons da casa ganhavam corpo e medo. Só o vulto das árvores da praceta, por detrás do cortinado, me tranquilizava. Lembrava-me de uma história que tinha lido, uma lenda índia norte-americana, que contava que as árvores eram grandes espíritos que olhavam pelos homens. Elas já cá estavam quando chegámos e olham por nós. Acreditar nisso fazia-me adormecer. Contei-a à minha filha quando ela era pequena. E contei-lhe das sequóias da América do Norte, que dizem que alguma são tão grandes e tão velhas, que se consegue ouvir a água a correr-lhes pelos vasos. Como se tivessem um coração por dentro. Como se fossem velhos espíritos. As histórias, mesmo as mais improváveis, serão sempre a melhor forma de enfrentarmos os medos.
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