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Do gostarmos muito uns dos outros

por Cristina Nobre Soares, em 27.06.18

Quando eu estava na faculdade, um dos professores que me fizeram ir às aulas era um pedante insuportável. Um “snob” que se gabava das viagens ao estrangeiro que fazia, de só calçar sapatos italianos e que se referia a políticos e a pessoas do meio artístico pelo primeiro nome. Desprezava-nos profundamente, fosse por não termos lido as “Bucólicas” de Virgílio, fosse por nunca termos ido ao MoMa. Aos olhos dele éramos uns broncos provincianos. Quase todos os meus colegas o detestavam e, de facto, era uma criatura intragável, mas eu adorava as suas aulas. O homem era dono de uma imensa cultura e fazia pontes improváveis entre áreas de conhecimento. E mais do que tudo, fazia-nos pensar. Nem que fosse por discordarmos dele, o que acontecia em quase todas as aulas. Aprendi imenso, cheguei a usar exemplos que ele usava, mais tarde, quando fui professora. É difícil explicar como nos deixamos marcar por pessoas assim, quando há este sentido que temos de gostar muito uns dos outros e sermos todos excelentes pessoas. Espero que ele não tenha conta de Facebook. Coitado, matavam-no.

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