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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Ainda eu era bolseira de investigação (e os animais falavam) quando concorri a um lugar numa outra universidade. Pediam valências absurdamente específicas, como especialização em identificação de macroinvertebrados de águas interiores (palavrão para melgas e alfaiates que vivem nas albufeiras). O mais absurdo é que eu as tinha. Mas mesmo assim, não consegui o lugar. Justificaram-me que tinha sido porque a candidata escolhida (muito provavelmente uma bolseira em contrato precário a quem queriam garantir mais dois anos de trabalho) sabia falar alemão e eu não. Foi das justificações mais manhosas que ouvi na vida. Obviamente que esperneei. Fiquei sem o lugar na mesma. Quando cheguei a casa, contei ao meu pai, com ar vitorioso que não tinha ficado por uma unha negra. Só por causa do alemão, vê lá a injustiça. Mas tiveram que ouvir umas boas. O meu pai olhou para mim e disse, certo. Mas não conseguiste. Porque o teu objectivo era ficar com o trabalho e não, provar-lhes que os critérios de selecção eram injustos. Fiquei sem argumentação. Nesse dia percebi que a concretização é uma coisa bastante binária e com pouca margem de manobra para dourar a pílula. A lucidez será sempre uma coisa tramada.
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