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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Dia de finados

Cristina Nobre Soares, 16.08.20

Depois do divórcio, a prima Odete andou entre o alívio e a euforia, durante quase um ano. O Zé Manel não quis ficar com nada, tirando as coisas que tinha levado de solteiro, entre as quais uma belíssima aparelhagem estéreo onde ouvia a sua grande colecção de discos.

A prima Odete dizia que se sentia num “relax” como há muito não se sentia, apesar de nesse Verão ter chegado a fumar três maços por dia (mais de noite, que o tabaco a ajudava a passar as noites em branco). O “relax” da prima Odete acabou no dia de finados de mil novecentos e oitenta e um, quando, ao chegar a casa, a tia Maria Adelina lhe disse que ao sair do 17, na Praça do Chile, tinha dado de caras com o Zé Manel.

- Vinha com o braço por cima de uma fulana. Não me viu ou então fez que não me viu.

A prima Odete perguntou-lhe se a fulana era jeitosa, se era nova, se era gorda, se era alta, se era baixa, se tinha um tipo fino, se tinha ar rameloso. Que não, que tinha parecido à tia Maria Adelina uma mulher normalíssima, nem feia nem bonita.

- Já ele, olha, digo-te, está um com rico aspecto. Até parece que remoçou.

A prima Odete torceu o lábio.

- Mais uma. Não deve passar do Natal.

Passou desse Natal, e do Natal seguinte. O Zé Manel casou-se com a Anabela.

- Dou-lhes um ano, é só passar a novidade. – disse a prima Odete.

Passaram dois. E nasceu-lhes o primeiro filho.

- Agora é que vão ser elas. Com a criança, ao fim de seis meses o Zé Manel arranja outra.

Não arranjou. Passaram mais dois anos e nasceu-lhes outro filho.

- Agora com dois catraios é que aquilo vai pelo cano.

Não foi.

- Deixa-a ficar pesadona da idade e a gente logo fala. É só ela ter um cheirinho a meia-idade.

Anabela foi uma mulher magra até dois mil e dezoito, ano em Zé Manel morreu de enfarte e em que fariam trinta e cinco anos de casados. No dia a seguir à tia Adelina ter visto o Zé Manel abraçado à Anabela na Praça de Chile, a prima Odete resolveu comprar um gira-discos portátil para preencher o vazio que ficara na mesa de imitação de mármore, lugar que, durante anos, fora cativo da aparelhagem estéreo do Zé Manel. Pôs a tocar um disco da Maria Bethania,  nessa e em muitas outras noites dos oito anos em que lhe demoraram a passar o dorido e a raiva de ver o Zé Manel a amar outra mulher, muito mais do que alguma vez a tinha amado a ela ( e sempre que pensava nisso tinha a certeza que o verbo amar soava de modo muito menos parolo quando dito com sotaque brasileiro), até lhe fazer um risco numa das "portas entreabertas" do refrão. Ouvia-o tanto que, anos mais tarde, a filha, Ana Marta, haveria de ter um azar tão grande à Maria Bethânia, que mudava a estação de rádio aos primeiros acordes da bendita música, comentando:

-Ainda por cima é feia que nem uma bota da tropa.

 

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