Dia de finados
Depois do divórcio, a prima Odete andou entre o alívio e a euforia, durante quase um ano. O Zé Manel não quis ficar com nada, tirando as coisas que tinha levado de solteiro, entre as quais uma belíssima aparelhagem estéreo onde ouvia a sua grande colecção de discos.
A prima Odete dizia que se sentia num “relax” como há muito não se sentia, apesar de nesse Verão ter chegado a fumar três maços por dia (mais de noite, que o tabaco a ajudava a passar as noites em branco). O “relax” da prima Odete acabou no dia de finados de mil novecentos e oitenta e um, quando, ao chegar a casa, a tia Maria Adelina lhe disse que ao sair do 17, na Praça do Chile, tinha dado de caras com o Zé Manel.
- Vinha com o braço por cima de uma fulana. Não me viu ou então fez que não me viu.
A prima Odete perguntou-lhe se a fulana era jeitosa, se era nova, se era gorda, se era alta, se era baixa, se tinha um tipo fino, se tinha ar rameloso. Que não, que tinha parecido à tia Maria Adelina uma mulher normalíssima, nem feia nem bonita.
- Já ele, olha, digo-te, está um com rico aspecto. Até parece que remoçou.
A prima Odete torceu o lábio.
- Mais uma. Não deve passar do Natal.
Passou desse Natal, e do Natal seguinte. O Zé Manel casou-se com a Anabela.
- Dou-lhes um ano, é só passar a novidade. – disse a prima Odete.
Passaram dois. E nasceu-lhes o primeiro filho.
- Agora é que vão ser elas. Com a criança, ao fim de seis meses o Zé Manel arranja outra.
Não arranjou. Passaram mais dois anos e nasceu-lhes outro filho.
- Agora com dois catraios é que aquilo vai pelo cano.
Não foi.
- Deixa-a ficar pesadona da idade e a gente logo fala. É só ela ter um cheirinho a meia-idade.
Anabela foi uma mulher magra até dois mil e dezoito, ano em Zé Manel morreu de enfarte e em que fariam trinta e cinco anos de casados. No dia a seguir à tia Adelina ter visto o Zé Manel abraçado à Anabela na Praça de Chile, a prima Odete resolveu comprar um gira-discos portátil para preencher o vazio que ficara na mesa de imitação de mármore, lugar que, durante anos, fora cativo da aparelhagem estéreo do Zé Manel. Pôs a tocar um disco da Maria Bethania, nessa e em muitas outras noites dos oito anos em que lhe demoraram a passar o dorido e a raiva de ver o Zé Manel a amar outra mulher, muito mais do que alguma vez a tinha amado a ela ( e sempre que pensava nisso tinha a certeza que o verbo amar soava de modo muito menos parolo quando dito com sotaque brasileiro), até lhe fazer um risco numa das "portas entreabertas" do refrão. Ouvia-o tanto que, anos mais tarde, a filha, Ana Marta, haveria de ter um azar tão grande à Maria Bethânia, que mudava a estação de rádio aos primeiros acordes da bendita música, comentando:
-Ainda por cima é feia que nem uma bota da tropa.
