Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

De um modo geral, nunca acho grande piada ao que escrevo

Cristina Nobre Soares, 23.03.16

De um modo geral, nunca acho grande piada ao que escrevo. A quente ainda sou capaz de achar que ficou bom, mas passa-me depressa e quando volto ao que escrevi acho que está péssimo e acabo por reescrever tudo. O que é coisa para ter potencial para nunca estar terminada. O único livro que até hoje publiquei, acho-o horrível. Pedante, melodramático, mal escrito. Por isso quando me dizem, gostava muito de ler o teu livro, eu finjo que não ouço e mudo de assunto. Escrever é uma forma de vida tramada. Mas a gente habitua-se a tudo. Quer dizer, a quase tudo. Coisas como “escreve-me aí uma coisinha”, ou “deixa estar, que eu pego no que escreveste e dou-lhe a minha volta”, continuam a causar-me azia. Toda a gente acha que sabe escrever. Até eu. E realmente toda a gente, mal ou bem, o faz desde os seis anos. Escrever nem sequer é bem um talento. A Marta da minha turma da primária tinha um talento, que era desenhar. A Ana Sofia sabia fazer a ponte e a roda e a Patrícia era muito afinidinha a cantar. E alta. Eu? Eu escrevia composições. Estava ao nível do Luís Miguel que sabia a tabuada de cor e fazia contas de dividir em menos de um fósforo. Escrever é mais uma habilidade do que um talento. Daquelas que até podem ser utilizadas em doses ou prestações. Ninguém se lembra de usar um terço de um logótipo, ou metade daquele retrato a carvão que nos fizeram na esplanada em Albufeira. Ninguém diz ao dinamarquês vestido de peruano, olha, levo só metade da cara, que o resto eu faço à minha maneira. Pois. Ninguém faz isto. Já na escrita, é um ver se te avias de corte e costura. Mas também há momentos bons. Ontem tive um desses. Uma cliente, a quem enviei um texto sobre o projecto dela, ficou tão contente que tive de ir verificar ao email se lhe tinha enviado o texto certo. Tinha. Era mesmo aquele. Até que enfim que alguém conseguiu pôr em palavras o que eu andava há anos a pensar, disse-me ela. E eu sorri. Um daqueles sorrisos de missão cumprida. Um dia destes ainda monto uma banca de escrita em Albufeira.

4 comentários

Comentar post