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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Já por mais do que uma vez disse aqui que comentários como “tens de ter cuidado com a fama”, “tu é que te puseste a jeito”, “só te dás com rapazes”, “escusavas de ter levado mini-saia”, “isso não é coisa de mulher”, “uma mulher séria não tem ouvidos”, “uma mulher séria e com classe não levanta a voz, não ri alto, senta-se de joelhos juntos, de costas direitas e não se mete em conversas de homens”, “já sabias ao que ias”, ouvia-as de boca de outras mulheres. Os julgamentos mais duros, os apontares de dedo mais cruéis, a ponto de ainda hoje me lembrar nitidamente deles, vieram de outras mulheres. De outras mulheres. Infelizmente. Cedo decidi que queria ser tratada, ter os mesmos direitos de escolha que os rapazes. Mas também cedo percebi que essa não era uma batalha apenas a ser travada com o género oposto. E esta, a batalha que tive de travar com o meu próprio género, foi, muitas vezes e de longe, a mais dorida.
Neste rescaldo do movimento #metoo leio por aqui textos e comentários simplistas (e moralistas) que tornam as mulheres em vítimas indefesas, subjugadas pelos homens e que tornam estes em inimigos a abater. Assim será difícil chegarmos a algum lado. Sabem? Estes homens tiveram mães, avós, tias. E a minha pergunta, a que me corrói acima das outras todas, a que me dói até ao osso, será sempre: E o que fizeram estas mães, avós, irmãs e tias para educar estes rapazes? O que ensinaram estas mães? A eles, aos filhos e, também, às filhas? Ensinaram-nos a dividir as tarefas de casa com as irmãs? Deram-lhes os mesmos horários e liberdades quando saíam à noite? Exigiram-lhes o mesmo no comportamento? Ensinaram-nos a tratar bem as namoradas? Que a responsabilidade numa gravidez adolescente é tanto deles como da rapariga que engravida? E às filhas? Ensinaram-lhe que podem ser livres nas escolhas que fizerem, seja na profissão que escolherem, na roupa que querem vestir, nos filhos que querem ou não ter. Ensinaram-lhes que são donas do seu corpo? Que o corpo delas apenas a elas pertence? Se calhar, devíamos perder um bocadinho de tempo a pensar nisto.
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